Thursday, April 16, 2009

Ele não esteve cá, mas foi um passeio lindo (pedaço de filme)

Manhã de Abril. Ela acordara alvoraçada porque sabia que ele ia partir, eventualmente. E o eventualmente chegou mais cedo do que primeiramente pensara. Aliás, como chega sempre. Malditas eventualidades.
- Eu gosto mesmo muito de ti. Não te esqueças nunca disso. E não mudes.
- Vais já?
- Vou.
- Porquê? Mas não ficas cá comigo até às 12?
- Não, não posso.
- Porque é que não podes?
- Maria, não posso.
A porta bateu não sem antes um último adeus ser proferido, quase em jeito de beijo de boa noite, mesmo sendo agora dia. Recém nascido.
A noite ainda parecia longe para aquelas duas almas que não se encontravam há mais de ano, quando o sol ainda fazia ver que pouco passara desde as 14. Isto porque as conversas escasseavam de entre um sei que estás diferente e um igualmente usual como te corre a vida e a carreira - há quem não diferencie estes dois, mas em tempos de indecisão há quem faça para que a vida pareça mais que mundana.
Riam-se.
- Não queres ir à Brasileira? Ficamos lá fora.
- Está cheia! Podes sempre ir lá buscar um café e pousamo-lo num parapeito qualquer.
- Não, espera, sei de um café giro ali ao pé do Teatro. Mas continua, estavamos a falar do que o teu amigo disse sobre aquela situação...
- Ah, sim, mas não te vou contar a história toda.
- Oh, que chatice! Lá estás tu e essa tua mania de começar a contar alguma coisa e a não a acabar.
- Eu sou assim.
- Já não te ouvia dizer isso há um bom tempo. Dizia-lo a toda a hora.
- Há coisas que eu nem digo.
- É. Isso é porque não gostas de mim.
- Sabes que sim.
- É. Amas-me, secalhar.
- Olha...
- Ahah, claro que não me amas. Não deves gostar de mim, tão pouco amar. Aliás, acho que ninguém me ama. Secalhar nunca ninguém amou.
- Porque é que dizes isso?
- Olha, porque a ausência de sinais é um sinal.
- E não vês os sinais?
- Que sinais, meu parvalhão? Quando se ama, diz-se! Já dizia o meu pai.
Engoliram um café e um chá, ela fumou dois cigarros e ofereceu outro a um mendigo que lhe parecia menos constrangido que ela própria, até no acto de pedir. Desculpe menina, tem um cigarro que me dê, Tenho sim, tome, não tenho é lume. E não tinha. Queria mais era arder no fervor de uma discussão frutífera, mas a situação não lhe permitia o calor. Para além disso estava frio, vento e a luz era primaveril e desconfortável. Vamos para dentro, Espera, fiquemos um pouco mais. Contou-lhe, ele, histórias isoladas - porque a ela não comoviam e a ele não já não podiam alterar mais o presente - e ela ria mais da saudade que da piada. Este era o ele que conhecera, sempre na mesma, sempre mais velho e misterioso. Sim, contava histórias, mas não falava dele. Gostas de chá preto, de Carlos Paredes, do cheiro da lavanda, e pronto, lá estava ela, Sempre a fazer dessas perguntas, a tentar saber do que gosto!
Entretanto a conversa engrenou e começou um espectáculo a que ambos queriam assistir. A cevada escorregou por aquelas gargantas que já tinham sentido as folhas do chá e o grão do café no seu jeito mais dourado, exaltou-se o público e roeram-se as unhas. As mãos, enganadas nas rotas, encontraram-se, como se todo o dia, todas as conversas e todos os líquidos quisessem fazer com que as circunstâncias convergissem naquele momento. Mas as desculpas foram aceites, Ups, foi sem querer, Tudo bem, e voltaram a virar-se costas e palmas em sentidos opostos. As pessoas costumam dizer que estes momentos são eternos no tempo, mas ao mesmo tempo o tempo parece passar-se mais depressa nestes lapsos que são para sempre que nos outros que não o são. Ou o sempre é momentâneo, ou o banal dura mais tempo, ou estamos todos enganados. Chegou a hora de jantar. Sentaram-se como manda a etiqueta, Obrigada cavalheiro, Tu é que não estás habituada, não sei porquê, Porque estiveste longe e não me habituo aos outros, assim como estes hábitos não lhes tocam em parte nenhuma da sensibilidade humana. O vinho escolheu ele, ela indicou o prato. Entretanto, clarificados pelo tempo de convivência e pela desinibição dos líquidos, tudo parecia natural, tudo era natural e ele respondeu-lhe a alguns porquês.
- Não gosto de conversas banais. Assim, coisas que não levam a lado nenhum. Evito-as com quem posso. Contigo, por exemplo, não preciso de as ter.
- Conversas... Conversas só são banais se as vires assim. A interacção é o mais importante. A convivência.
- O silêncio diz mais que mil palavras.
- É a imagem, tonto.
- Ah, tens razão. Mas então vá, o silêncio diz muita coisa.
- Aprendi na escola que não se pode não comunicar. Ainda não me perguntaste como me vai a escola. É por ser banal?
- Oh, também não me pergunstaste como ia o emprego.
- Não perguntei? Oh, é porque já me foste contando qualquer coisa. Mas diz-me, queres viver lá, onde trabalhas, que é longe, para sempre?
- Sei lá. Não gosto nem consigo fazer grandes planos.
- Onde te vês daqui a cinco anos? Eu gostava de me ver fora daqui.
- Nem sei se estou cá daqui a seis meses. Queria estar.
- Certo então.
- Está a ser mais difícil de conversar contigo. Antigamente era mais fácil.
- Isso é bom?
- É diferente. Normalmente só eu é que era o difícil. Isto assim é diferente.
Chegaram as entradas.
- A minha tia pergunta sempre por ti, Maria.
- A sério? Por mim? Porquê?
- Quer sempre saber quando volto a Lisboa.
- Que giro. Não sabia sequer que ela sabia de mim. Então e amanhã, ficamos por cá ou pegamos no carro e fugimos?
- Amanhã... Amanhã vou-me embora.
- Já?! Mas não era isso que tinhamos combinado. Bom, não combinámos nada, mas tinhamos várias hipóteses em cima da mesa... Essa não era definitivamente uma delas.
- Desculpa, tem de ser.
- Mas tem de ser porquê?
Ele não tocou no prato. Ela mais do que queria.
- Mas tem de ser porquê?
- Pelo mesmo motivo que não te posso ter no MSN, nem enviar e-mails.
- Pois é, porque é que não te posso contactar dessa maneira?
- Tem muito mais piada falarmos ao telefone aqui e ali.
- Mas são tão poucas essas vezes...
- Então, assim ficas com mais saudades minhas.
- Hm.
- Sabes bem que sempre que conversamos através da escrita não conseguimos interpretar-nos bem e eu não quero discutir contigo.
- Não concordo nada. A escrita é o melhor meio de comunicação.
- Não é nada.
- Eu acho.
- Porque é que vais já amanhã?
- Maria... Não interessa.
Levaram os pratos das entradas, preparavam-se para o prato principal.
- Claro que interessa. Fico dois anos e meio sem te por a vista em cima, combinámos uns dias juntos, e agora foges?
Ele ficou em silêncio e trincou três vezes o que estava por cima do garfo. Limpou a boca, serviu-lhe o copo de vinho mais duas vezes e pagou a conta.
- O meu pai sempre me disse que não há almoços grátis.
Chegando à rua abraçaram-se e ele sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido, Tive saudades tuas.
Precorreram o bairro de alto a baixo, de baixo a alto, ruas, vielas, pouca gente, feia gente, maldita gente. Ele escondia o que sentia, ela sentia náuseas e escondeu-se na casa de banho. Três minutos depois estava quase como nova, mesmo não sendo velha.
- Maria, eu não posso conversar contigo para um Olá, tudo bem, não quero saber que estás longe sempre que te vir no MSN ou seja lá o que for, não quero nem posso, não sei ser teu amigo. Antes teu inimigo que teu amigo. Essas conversas são para todas as outras pessoas. Não para ti. Entende isto. Não consigo banalizar. Não sei explicar bem. E de certo que também tu não sabes como é entrar no avião e em vez de pensar no meu irmão, nos meus pais, na minha casa, no que está comigo desde sempre, pensar em ti.
- Quero-me sentar...
- Vamos, sentas-te no carro e deixo-te em casa. Depois sigo viagem.
- Ok. Não insisto mais contigo.
Sentaram-se no carro e ela mordeu tudo quanto fosse doce com a força que podia, que a boca e a consciência lhe sabiam mal.
- Posso subir Maria? Tenho de beber água.
- Claro, anda. Se quiseres dormitas um pouco, que a viagem logo de seguida é coisa difícil. É tarde.
Subiram os dois. Ele bebeu a água e ela ligou o computador - ainda tinha que terminar um trabalho para a escola e o relógio ia adiantado. Ele adormeceu perto dela, depois de se terem rido mais um pouco, quando ele viu pela primeira vez filmes da infância dela e ela apenas os revisitou. Trabalhou um pouco, pensou outro tanto, e disse Já sei porque é que não queres ser meu amigo, Hm, Acho que me vês como uma recordação e não como eu sou, e não queres perder essa imagem idílica de mim, mas estás tramado, que eu aqui estou ou aqui estou eu, vestida com um pijama com ovelhinhas e a comer argolinhas do Pingo Doce.
Retornou ao trabalho que pareceu durar para sempre, foi quase um daqueles momentos, e acabou por ceder ao sono, ao lado dele, como nunca, numa visão completamente real e muito pouco paradisíaca. Entretanto amanheceu, e ele partiu.

Monday, April 13, 2009

Monday, April 06, 2009

Eu gosto de sopa

Ao virar da esquina, eram dois rouxinóis.
Isto não parece fazer muito sentido escrito
(A maneira como escrevi)
Mas as palavras não seguem racionalidade
Ou não tanto como o que nos é verdade.
E a verdade de hoje não é a de sempre,
Se bem que sempre é demais e não é fiel.
Eu ontem ter-te-ia posto o anel!
Talvez hoje ainda, mas pela piada da coisa
Que hoje gosto demais da moça.
Voltemos ao passaredo.
Eram dois rouxinóis e um penedo.
Ou um rochedo. Apetece-me rimar com "edo"
Sem medo.
Credo.
Odeio medo.
Já chega.
Os rouxinóis e o penedo lá ficaram
E eu parti, com o canto dos primeiros
E o segundo ficou lá no canto, da minha memória.
Mas aqui não fará história,que amanhã já o esqueci.
Era só um penedo, e uma palavra gira.

Wednesday, April 01, 2009

Sunday, March 15, 2009

beij'arte

quisera eu saber d ' arte.

Imobilidade e Apatia

Paro. Escuto, mas não há nada que queira ouvir.
Os sons demasiado agúdos causam-me nauseas
E o cheiro é nauseabundo.
Parece-me que estou num submundo,
Ou num mundo paralelo,
Onde o meu rosto cândido ficou amarelo
E há verde de musgo.
O que queria era ouvir música clássica
Num lapso de musicalidades
Queria acreditar que as músicas são as verdades
E que isto aqui é um rochedo.
É que, na verdade, eu tive medo.
(Mas não digam a ninguém)
E se o tive é porque não tenho,
Talvez o tenha é esquecido
Sem querer abusar da sorte.
Hoje não sinto a vida nem a morte.
Tudo se me passa e eu passo por tudo
E nada se me ocorre para o explicar.
Nas ondas do vendaval esqueci de mim
E tranformei-me em largo mar
Onde tudo é frio e salgado
Transparente, desmembrado,
E já não me posso afogar.

Aleluia, esqueci-me de afogar.

Friday, March 13, 2009

O gato foi às filhoses

Eles o que andam é aí, esganados da noite. Julgam-se livres e contentes, que se riem gargalhando, mas cinicamente preparam um estrugido de beterraba e ai que isso se faz de cebolas. Faz que eu sei. Foi um cozinheiro que mo disse.O "ai" foi pelo espanto, que o cozinheiro só mo disse agora. E eu acho que eles sabem, mas preferem beterrabas às cebolas, que são menos translúcidas.

Tuesday, March 10, 2009

Campos cheios de flores

Oiço a rádio.
A música encaixa-se perfeitamente no meu estado de espírito.
Escuto.
A letra da música é "you got me going on".
Soa bem.
A maçã é verde e pura, como é a água da garrrafa do pingo doce.
Limpo. Esqueço.
Sei que tens os olhos claros. Vêm muito.
Os meus andam escuros e eu acho que é da contra-luz.

- Olha lá, quem és tu? Nunca te vi por aqui. Bom, de qualquer maneira, obrigada por teres vindo, e sabe que muito provavelmente também te persigo. Só não sei quem és. Mas já agora também te digo que não podes ser novo nestas bandas. Tens muito paleio. E se não destas bandas, doutras bandas mais interessantes. Sabe que aqui, nesta aldeia, as pessoas são mexeriqueiras e miudinhas. Ai que às vezes me apetece bater-lhes com um mapa e mandá-las aos raios que as partam, ou a outros sítios quaisquer hediondos como elas. Ou sítios belos, a ver se se embelezam. Ah, mas eu sou bela. Acredita que sou. Eu acredito que sou. Que se eu não acreditar nisso num sítio tão hediondo, bem posso é morrer. Valha-nos isso, que é bom o senso.

...

- Estou a ouvir contrabaixos.
- Onde?
- Não sei.

Wednesday, February 25, 2009

Ela está nua

(E acha que)

- Está farta de estar apaixonada por estar apaixonada. Queria apaixonar-se por algum conteúdo, alguma coisa que lhe desse vontade de se prender e se entregar. Parece que só assim chegamos à liberdade, dizia ela. "Pelo predimento para o desprendimento. É o paradoxo da incompletude." Não sei o que é isto, nem sei muito bem o que disse. Estava farta de adorar apaixonar-se constantemente. A paixão pela paixão é uma farsa. Ou é uma fuga. Ou melhor, não pode ser fuga, porque só se foge de algo. Não fugia de nada. Só procurava. A paixão pela paixão é uma procura, definitivamente. Mas desmesurada. Tola. E sem sentido. A procura não pode ou não deve ser procurada. Deve ser real. Mas ela sentia-a inata. Não sei o que sentia. Não sei se alguma vez sentia. Bom, às vezes sentia que havia sentido, mas não sentia que sentisse. Sentia a melancolia e a nostalgia, sim. Isso sentia. Mas era o chorar pelo perdido que sentia. O mito Sebastianista é tolo. Eu sou tolo. Queria que a tirassem dali porque gostava de estar ali. Às vezes. "Nunca há um todo. Há a soma das partes." Adorava as partes. Não conseguia chegar a um todo. A um todo que adorasse. Os todos que via eram chatos. Não. Incompletos, dizia. Os todos que via eram incompletos. Eram todos para outros, mas não para ela. Esses todos são, para ela, como o vento no Inverno. Passam por ela sem que os veja com olhos de ver, e são frios. Mas atenção, eles não chegam assim frios e sem avisar. Ela via ao fundo a tempestade, mas via-a porque pensava ter visto antes a luz, num abrasador dia de Verão. O Verão é bonito. No Verão, os meninos correm no parque. Saio à rua e transpiro. Fico molhado nos sovacos e sinto-me mal. Ao menos sinto. A água é uma coisa boa. As pessoas gostam de ficar molhadas. Por isso é que no Verão se atiram ao mar. Por isso é que metem a pata na poça. E molham-se. E depois ficam frias. O gato escaldado de água fria tem medo. Os gatos são tipos espertos, têm sete vidas. Isso já se sabe. O que eu não sei é que ela não podia com a gata pelada pelo rabo. Nunca teve um grande rabo. E nunca gostou de gatos.

Seek rhymes with sick

Os que procuram, são doentes?

Wednesday, February 11, 2009

Foge lê-se como Foz

- Isto é lindo!!! Isto, isto é lindo! É o tim-tim-tim, é o grave das notas, é um amorzinho de toque. Lembra-me seda e verde esmeralda. Nuvens no céu e pardais.
- A mim, faz-me chorar pelo perdido. Chorar pelo belo, para despejar o feio.
- Mas já viste bem como toca rápido e percebe a pauta? Porque nem sempre é rápido, é só em determinados momentos. E olha! Ahahah, olha, que faz o meu braço dançar de entusiasmo!
- Parece que a vejo tocar em bailados. Lembro-me, agora, do Palácio da Foz. O único de que me lembro de alguma coisa, se é que me lembro de coisa alguma. E esqueço-me agora também, pois que me perco. É lindo sim. Isto, é lindo!

- Quero usar o meu pendente dourado.
- Porque não o fazes agora?
- É tarde. Ninguém, a esta hora, se atreverá a sair comigo só para que possa mostrar o pendente.
- Que belo é o teu pendente.
- É. Descobri-o onde não havia mais mas onde o podiam ter achado antes de mim. Mas fui eu! Eu, quem o trouxe.
- Queres sair comigo?
- Não, tu podes vê-lo aqui e não o quero mostrar só mais à noite fria e cabisbaixa. Fico aqui no calor da casa a olhar para ele, pois que aqui me faz sorrir.

- Hoje não quero sorrir, por mais belas que sejam as coisas e as músicas.
- Hoje quero sorrir mais que ontem.
- Hoje perdi.
- Hoje ganhei.
- Hoje choro.
- Hoje preciso de sorrir timidamente por isso.
- Hoje busco.
- Amanhã logo vejo.
- Não me percas de vista.

Ouvir La Campanella e pensar. Pelo Rubinstein.

Saturday, January 31, 2009

Ele às vezes fala comigo. Mas raramente.

O Preto do Bairro que é Dinamarquês chora,
Chora, ai que chora o Preto do Bairro, Dinamarquês,
Não o Bairro, o Preto mesmo, aquele que chora,
Num bairro que não é dele mas que o vê chorar.

E fala, o Dinamarquês, se fala, pois que fala!
Então não havia agora o homem de falar?
Que chora e fala e anda para lá, pelo Bairro,
O Preto do Bairro, chorão, a vagabundear.

E ensina e inventa, e fala e chora, o Dinamarquês,
E ensina o pequeno e o velho, enquanto chora,
E fala ensinando o velho, ou a si próprio, ou ao pequeno,
Que o Preto, esse, está no seu terreno.

E se o seu terreno é o Bairro e ele por lá está, está bem,
Que o terreno de cada um é o que mais lhe convém,
Seja lá por que motivo for, que muitos há, aos motivos,
E os terrenos são limitados, cercados e definidos.

Se o Preto do Bairro fosse meu amigo, que é amigo de todos, e não meu,
Gostava de lhe perguntar que males via em mim,
Que ele não só sabe chorar, sabe falar, sabe ensinar
E os males da cada um são coisa difícil de analisar.

Se eu soubesse pelo Dinamarquês o que faz mossa, o que chateia,
Sabia eu mais do que sei agora só, no meu terreno esquecido,
Que quando acho que me encontro me vejo é perdido,
E o trilho é a firmação, a pura certeza e a contentação.

Mas já me disse coisas, O do Bairro, O que fala, O que Chora,
Disse-me quando mal esperava, noutro dia, noutra hora,
Quando parecia não querer ouvir, não querer saber, não querer perceber,
Que o Preto até mo disse mas eu fiz por não o entender.

O Preto do Bairro é o meu pai e o pai de todos, que todos são filhos,
E todos temos direito a terrenos, a futuros, a caminhos, a trilhos,
E todos temos também direito a dúvidas, a incertezas, a arrependimento,
Que se o Preto do Bairro é pai Dinamarquês, também vive no Bairro, sem sustento.

Mas, o que mais interessa, é a vida.

Que vivê-la no Bairro ou na Dinamarca, pouco diz do terreno que pisamos,
Que o futuro é o presente, e, agora, aqui estamos.

Friday, January 30, 2009

À tarde, diz que é prata

Vagabundeando pelas vielas estreitas e esquecidas das gentes públicas,
É fácil perceber-se porque não se deve comer laranjas à noite.

"A laranja de dia é ouro,
À tarde prata,
E à noite mata."

A cor e o saboroso do doce ficaram-se pelos céus azuis cândidos das manhãs
E pela noite só sei que há vagabundos a quem não se pode olhar nos olhos.

ShaiPaiMaiTai Ai Sai !

Dói-me pensar, não sei porquê escrever!

Porquê?!

Bom, sentindo a escapatória a escapar-se-me por mãos que não tenho
Porque não as tenho, ou nada tenho certo,
Recorri ao velho, ao habitual, ao vício banal, à comodidade,
Talvez nela esteja a mais pura verdade
E indagamos nós, ou Eu, à procura de uma falsa realidade
Que ás vezes dói, e dói nas vezes em que se acentua a vontade de saber.
Dói mas não uma dor física, antes que o fosse, que esta dor é apática,
É uma coisa que não é nem deixa de ser e fica,
Como nada mais fica, e por isso mesmo, fica.
Quero-te já fora daqui! Já! Já! Já!
Quero correr para trás e encontrar-Me quando Me conhecia pelos lápis de cor
E talvez isso tenha sido ontem, ou há uma semana,
Mas eu hoje não recordo. Só me lembro de recordar.
Que o meu corpo a recordação bana, que mais não sei que pensar.
Eu penso que penso, pois pensar não pode ser isto,
Isto são balelas, tretas de sentimentos ou de expressões,
Que o pensar não pode ser tão obscuro, pois é conhecimento,
E o conhecer há-de o trazer, ao contentamento.
Ou não.
Detesto dilemas.

Wednesday, January 21, 2009

Hei-los, aos elos.

- Olá! Estou aqui de novo, Mamã. Trouxe-Te um presente.
- Ai sim? Então? Mostra-mo, quero vê-lo!
- Não. Não To posso já mostrar.
- Mas não o trouxeste para mim?
- Sim, Mamã. Mas não Mo peças e não esperes que To dê já.
- Porquê?
- Ah, e não perguntes, Mamã.
- Que do alto dos teus 7 anos já falas assim! Arrogância, meu filho. É disso que padeces.
- Não, Mamã. Secalhar não Te devia ter dito nada. Mas enfim, tenho, para Ti, um presente. Às vezes não me contenho. Acho que sou demasiado pequeno para guardar demasiadas coisas. Às vezes, rebento-me por dentro. Impludo. Um dia, hei-de explodir e pedaços de mim serão espalhados. Eu estarei em toda a parte. Um dia, ou umas vezes. As vezes.
- Não fales assim, que me agonias. Mas guardas-me um segredo!
- Não, que para Ti não os tenho. Mas vou adiar-Te o meu presente. Vou adiar o dia em que To darei, gloriosamente.
- Modéstia, meu filho. Modéstia.
- As virtudes, Mamã, são algumas das adversidades da vida. Agora, quero pecar, ser bandido, fugir, saltar e assaltar, roubar beijos, correr em matos selvagens e não voltar para jantar.
- Ah! O eterno desejo do efémero pecador. Olha que isso, meu filho, dura pouco. Um dia acordarás para a triste realidade que a vida tem para te dar.
- Ah, como Te quero presentear! Não penses em mim como um atreito às maleitas, um malandro. Sou um louco e quero sonhar! E sei que sonharás comigo, Mamã! Quando Te der o presente, serás como eu. Porque, no fundo, eu sei que somos iguais.

SEREMOS CARNE DA MESMA CARNE
TU ÉS
EU SEI QUE ÉS
ÓRGÃO DO MEU SER INCONSOLÁVEL - UM DESEJO DE LOUCURA ETERNO
AI !

Grita-me hoje que o dia é FINITO

Grita-me hoje.

eu GRITO.

Sunday, January 18, 2009

Fools in love - Are there any other kinds of lovers?


Fools in love


Are there any other creatures


More pathetic?


Thursday, January 15, 2009

Vi um gato no beco

Sabem quando nos alheamos de tudo e somente observamos?
Isso acontece, de facto, "até ver". É, até "se ver" a imagem mais bela, ou se se interpretar isso dessa forma, numa coincidência fantástica.

Montras, feixes de luz, irradiando,
Soltando de si falsa vida e cor,
Que daquela frieza azulada choravam
Efémeros pedidos de' terno, doce calor.

Mas digo-o assim porque assim o era,
Efémero, seco, igual, descartável,
Asfixiei-me em desespero, que vi a vida torcida,
E quero acreditar que o solo é arável.
Ainda.

E eis que entre dois antros de aridez grotesca vi,
Bem no meio, num beco rosa, ou salmão,
(Era de noite, não se via bem)
Um gato malhado.
Um lindo e gordo gato, como o das revistas cor-de-rosa.
Num beco rosa, ou salmão.
(Eu estava sem óculos)

Topei-lhe o ar sereno, no meio daquela agitação seca,
Enquanto estava sentado, incrivelmente direito.
Olhava para cima, olhava, para cima, para a parede salmão,
E mais não fazia que aquilo. Era perfeito!
Fixava o olhar e permanecia, na sua solidão.
(E achava eu que estava alheada.
Alhear-se sabem os gatos, que são espertos. Por isso é que têm 7 vidas.)

Tuesday, January 06, 2009

Animalidade. Não posso racionalizar.

Corre, salta, foge,
Grita, rebenta, transita,
Age, reage, ruge,
Arshe, irshe, urshe,
Rrr, siribi, catatá,
Sai, vai, cai,
Ai
Ai
Ai!

Se saires da tua jaula recôndida,
Verás um mundo novo
Cheio de fábulas e criações,
Invernos quentes e canções,
Que nem tudo é árido e perdido.
Hoje, para mim, tudo faz sentido.
Traz-me ou leva-me, vou, irei, estou,
Contigo ou sem ti, porque, por ti, sou.
Por mim, Por nós, Pelo mundo,
GRITEMOS!
Gritemos cá de dentro, do fundo,
Que os pulmões se aguentem,
E os outros que tapem o ouvido
Que isto hoje, para mim, faz sentido.
E tentem, grito-vos, TENTEM!
Tentem fazer mais por vós,
Que gritar de dentro não é mais
Que oferecer a nós.
Querer é um jeito de loucura,
E se assim o é, que o sei por certeza,
Entrego-me nesta desmesura
Que o querer é natureza,é real,
Eu hoje sou homem do povo, cidadão,
Mas no fundo, eu, sou animal.

Sou um animal do mundo perdido e hoje, talvez apenas hoje, tudo, para mim, faz sentido.
Mais sentido que o ontem e que o amanhã, por certo,
Que o amanhã é incerto.

Monday, January 05, 2009

Haja quem não tenha sono e queria dar luz a um cepo. Bem Haja.

Suspiros.



Sonhei que dormia

Pois que dormia, e sonhava,

E sonhando que dormia,

Não caminhava.

Ora, quem dorme parado

E parado sonha,

Sabe



Ai! Queria tanto hoje dormir

D'um sono que me levasse às estrelas.

Ai, queria tanto



estou perdida.

Thursday, December 18, 2008

A Velha vestia-se de preto e amarelo.

Um dia perguntei-lhe o que achava da legalização do aborto

E respondeu-me torto.

Ah, bolas, e eu queria mesmo falar a sério.

Como não consegui, perguntei-lhe pela cor favorita.

"-Tudo menos preto".

Oh! Qual não foi meu espanto,

Quando neste entretanto

Encontrei uma resposta bonita,

Mas que não fazia sentido!

Ah, bolas, fiquei perdido.

Se a indumentária nos reflecte a personalidade,

A Velha contradiz-se